quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

16


Hoje dia 29 de Fevereiro de 2012, completam 16 anos sem ouvir um “oi”, na verdade muito mais tempo que isso. Marido e esposa até podem se separar, mas “pai e mãe” não deveriam nunca.
Tantos anos depois e ainda não consigo entender por que tudo foi tão triste, sem solução. A separação não foi tão dolorosa no inicio, já não tínhamos o que podemos chamar de um relacionamento familiar, não me lembro de momentos felizes, família doriana.
Tínhamos defeitos, e por sinal por vários anos os defeitos vetaram qualquer possibilidade de pensar em meu pai como uma pessoa boa e que foi vítima de uma doença que ele não soube administrar.
Resolvi escrever não porque acredito que ele vai ver essa mensagem, infelizmente isso nunca vai acontecer, mas porque quero registrar que estou aprendendo a entender e aceitar o que aconteceu. Sinto a falta do meu pai, queria saber como seria se ele estivesse aqui ainda.
Infelizmente fica a interrogação.
Mas a despeito de tudo que vi e ouvi hoje mais do nunca sei que não posso julga-lo pelo que aconteceu e também não permito julgamentos sobre meu pai.
Essa é uma oportunidade única de registrar, pois 29 de Fevereiro só daqui há quatro anos.
De todo o meu coração, eu amo meu pai e sinto muita, muita saudade dele aqui comigo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Derretendo


Essa noite tive um sonho, talvez um dos mais estranhos da minha vida.
Tudo aconteceu aqui mesmo em Nova Soure, eu estava no   trabalho quando uma conhecida chegava com um vasinho de vidro com uns caroços, flocos, não sei bem explicar, dizendo que tinham feito um teste e que a cidade seria destruída. Em seguida minha mãe entrou no prédio com outro vasinho dizendo que *Dudu havia feito uns testes e que a cidade não suportaria mais um dia sequer, iriamos derreter.
Fui até a janela e observei que as pessoas se aglomeravam na praça e que algumas soltavam vários balões que ao alcaçarem certa altura caiam em forma de bolinhas, elas derreteram por conta do ácido na atmosfera. O céu estava todo escuro formando uma circunferência, uma pequena porção ao centro estava um pouco azul.
Da minha janela também observei algo como uma invasão de água, observei que não tinhamos praia, mas a água vinha com força total, trazendo um navio e pessoas mortas afogadas. Naquele momento percebi  que realmente iriamos morrer.
Estavam minha mãe e minhas duas irmãs, eu perguntei sobre meu irmãozinho Davi e minha mãe respondeu calmamente que ele estava em casa dormindo, mas que nós iriamos morrer.
Quando tudo estava sendo destruído acordei, mas a lembrança desse sonho me perturbou o dia inteiro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O último dia de vida



Naquela manhã, sentiu vontade de dormir mais um pouco. Estava cansado porque na noite anterior fora deitar muito tarde. Também não havia dormido bem. 
Teve um sono agitado. Mas logo abandonou a idéia de ficar um pouco mais na cama e se levantou, pensando na montanha de coisas que precisava fazer na empresa.
Lavou o rosto e fez a barba correndo, automaticamente. Não prestou atenção no rosto cansado nem nas olheiras escuras, resultado das noites mal dormidas. Nem sequer percebeu um aglomerado de pelos teimosos que escaparam da lâmina de barbear. "A vida é uma seqüência de dias vazios que precisamos preencher", pensou enquanto jogava a roupa por cima do corpo. 
Engoliu o café da manhã e saiu resmungando baixinho um "bom dia", sem convicção. Desprezou os lábios da esposa, que se ofereciam para um beijo de despedida. 
Não notou que os olhos dela ainda guardavam a doçura de mulher apaixonada, mesmo depois de tantos anos de casamento. Não entendia por que ela se queixava tanto da ausência dele e vivia reivindicando mais tempo para ficarem juntos.
Ele estava conseguindo manter o elevado padrão de vida da família, não estava? Isso não bastava? Claro que não teve tempo para esquentar o carro nem sorrir quando o cachorro, alegre, abanou o rabo. Deu a partida e acelerou. 
Ligou o rádio, que tocava uma canção antiga do Roberto Carlos, "detalhes tão pequenos de nós dois... "Pensou que não tinha mais tempo para curtir detalhes tão pequenos da vida.
Pegou o telefone celular e ligou para sua filha. Sorriu quando soube que o netinho havia dado os primeiros passos. 
Ficou sério quando a filha lembrou-o de que há tempos ele não aparecia para ver o neto e o convidou para almoçar. Ele relutou bastante: sabia que iria gostar muito de estar com o neto, mas não podia, naquele dia, dar-se ao luxo de sair da empresa. Agradeceu o convite, mas respondeu que seria impossível. Quem sabe no próximo final de semana? Ela insistiu, disse que sentia muita saudade e que gostaria de poder estar com ele na hora do almoço. Mas ele foi irredutível: realmente, era impossível.
Chegou à empresa e mal cumprimentou as pessoas. A agenda estava totalmente lotada, e era muito importante começar logo a atender seus compromissos, pois tinha plena convicção de que pessoas de valor não desperdiçam seu tempo com conversa fiada. 
No que seria sua hora do almoço, pediu para a secretária trazer um sanduíche e um refrigerante diet. O colesterol estava alto, precisava fazer um check-up, mas isso ficaria para o mês seguinte. Começou a comer enquanto lia alguns papéis que usaria na reunião da tarde.
Nem observou que tipo de lanche estava mastigando. Enquanto engolia relacionava os telefonemas que deveria dar, sentiu um pouco de tontura, a vista embaçou. Lembrou-se do médico advertindo-o, alguns dias antes, quando tivera os mesmos sintomas, de que estava na hora de fazer um check-up. Mas ele logo concluiu que era um mal-estar passageiro.
Terminado o "almoço", escovou os dentes e voltou à sua mesa. "A vida continua", pensou. Mais papéis para ler, mais decisões a tomar, mais compromissos a cumprir. Nem tudo saía como ele queria. Começou a gritar com o gerente, exigindo que este cumprisse o prometido. Afinal, ele estava sendo pressionado pela diretoria. Tinha de mostrar resultados. Será que o gerente não conseguia entender isso?
Saiu para a reunião já meio atrasado. Não esperou o elevador. Desceu as escadas pulando de dois em dois degraus. 
Parecia que a garagem estava a quilômetros de distância, encravada no miolo da terra, e não no subsolo do prédio.
Entrou no carro, deu partida e, quando ia engatar a primeira marcha, sentiu de novo o mal-estar. Agora havia uma dor forte no peito. O ar começou a faltar... a dor foi aumentando... o carro desapareceu... os outros carros também... Os pilares, as paredes, a porta, a claridade da rua, as luzes do teto, tudo foi sumindo diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que surgiam cenas de um filme que ele conhecia bem. Era como se o videocassete estivesse rodando em câmera lenta. Quadro a quadro, ele via esposa, o netinho, a filha e, uma após outra, todas as pessoas que mais 
gostava.
Por que mesmo não tinha ido almoçar com a filha e o neto? O que a esposa tinha dito à porta de casa quando ele estava saindo, hoje de manhã? Por que não foi pescar com os amigos no último feriado? A dor no peito persistia, mas agora outra dor começava a perturbá-lo: a do arrependimento. Ele não conseguia distinguir qual era a mais forte, a da coronária entupida ou a de sua alma rasgando.
Escutou o barulho de alguma coisa quebrando dentro de seu coração, e de seus olhos escorreram lágrimas silenciosas. 
Queria viver, queria ter mais uma chance, queria voltar para casa e beijar a esposa, abraçar a filha, brincar com o neto... 
queria... queria... mas não deu tempo.
Como está sua vida ? Qual o tempo que tem dedicado às coisas pequenas , mas importantes , da vida ? E Deus , em que lugar você ocoloca ? Será que ...?
Lembre-se , são poucas as pessoas que tem uma segunda e "nova oportunidade" de vida para mudar e ... Pense nisso .